27/02/2007

as estórias de Samedi

parte 1
HOTEL BAURU

1

André Samedi mora em Bauru, 23 anos, “ganha” a vida como jornalista. Na verdade ele se afunda num jornal provinciano e está sempre puto da vida. A voz dele é meio fina, para alguns meio bicha, e seu apelido é uma gracinha, mas não vou falar aqui ainda. É um artista frustrado, músico pop fracassado, um caco fragmentado de sensações péssimais e horríveis. “Hoje vou ouvir Radiohead sem parar”, ele disse, e decididamente o fez. Gostava do OK Computer, achava a fase anterior um lixo e doou os seus discos. Odiava discos, mas tinha aos montes. E sua vida era o jornal e ficar sentado na frente de um aparelho de som, ouvindo música, essa era a vidinha desgraçada dele, mas nem sempre ele ficava no jornal só pensando nisso. Numa onda masoquista, até gostava de fazer Polícia, a temida editoria dos lobos e das focas. Os jornalistas antigos, andavam armados, eram meio detetives e meio Raymond Chandler, mas quem tinha essa classe em Bauru?
A titular de polícia era uma vaca adorável, um tipo mulher fatal na casa dos 40. Uma pinta no canto da boca à Cindy, voilá, temos um belo objeto de desejo, apesar de burra com uma porta. Mas naquela época eu era menos exigente e só na hora que me apaixonava desencanava de tudo, das mulheres e passava apenas a odiar a todos tranquilamente no meu canto.
Sentia desprezo por quase todo mundo naquele jornal maldito. Toda rotina de trabalho é desgraçada, no interior aquilo estava muito próximo da morte. Clac clac fazia o cartão e eu sempre devendo horas, trabalhava muito menos do que deveria e fiz um acordo imbecil de dar uma parte do meu salário para o meu camarada Billy The Milk, de modo que aquilo era uma insanidade e durou anos.
A gente nunca lembra das coisas boas, só das merdas. Eu lembro muito mais do que eu sofri. Mas essa estória não é minha e sim de Samedi, eu só tenho que contá-la, e você não tem nada que saber de mim, leitora.

2

Só de ouvir música eletrônica eu já fico com tesão, disse Maria Leonza. Naqueles dias eles só ouviam trance, house e tecno. Tumtumtum. “Para mim Bauru é...” uma bosta, completou mentalmente Samedi. Mas não disse nada, permaneceu olhando pra ela, pensando no filme que um dia faria com aquela cena.
Maria Leonza estava deitada sobre o colchão de casal, que ficava no chão. Um raio muito definido pela luminosidade do sol infernal de Bauru, envolto em fumaça dança no ar. Ela fuma um cigarro, está nua, com as pernas cruzadas para cima, sobre as costas.
É ruiva e seu cabelo vai até a cintura quase.
Era fevereiro de 2000. Treparam por uma semana e decidiram namorar. “Eu tô pirando em você”, ele disse um dia ali na salinha de baixo do casarão.

3

O casarão velho tinha um monte de árvores, um balanço onde Leonza gostava de ficar, o favorito de Samedi era o jasmim-mangueira, a flor de Baba. E seu programa rotineiro preferido era matar as lagartas que o infestavam. Havia todo dia a matança de lagartas. Samedi nunca sabia se estava sendo útil para a planta e para a casa ou aumentando meu karma.
Ele trabalhava num jornal local, ela fazia arquitetura.

parte 2
SP CONFISSÕES

1.

Samedi está ouvindo um Miles Davis obscuro da fase “perdida”, 1971, um quinteto que nunca gravou. E se isso não for muito próximo do que se chama de O Grande Samadi então eu prefiro as contas e desexistir do mundo. Samedi, agora na casa dos 30, agarra-se a imagens para ficar pensando. Mas esse pensamento parece que não vem daí, mas de alguma etapas sofridas e da memória do escritor, sempre curta, e do leitor mais longo do que deveria ser. Como esquecer? Por que eu vou querer esquecer.
Não sei bem se me lembro por imagens ou por blocos de emoções repetidas. É como se tudo estivesse vivido e por viver e eu o kaos é recriado a cada momento.
Não gostaria de me afetar com as pessoas, afectuar demasiado por uma carência, pensou Samedi, escrevendo.
Pode vir com um pensamento liso como o mar, como o deserto, o sentido de todo segundo que eu estiver suspirando, a contração dos ritmos, a propagação química do som.

2

O Rio de Janeiro é sempre lindo. As pedras cheirando a mijo pelo Centro, onde está quase tudo que sei de mim ou do que eu quero saber. Ipanema is burning, estou dentro do mar verde, está calor, sol, 40 graus, a bandidagem se esgueira e fita toda a cena. Mas sou como um sufi, não tenho nada para que me roubem, só o dinheiro do ônibus e talvez do mate, grasso andar posto nove, posto oito, volta pro coqueirão e aquele bando de babacas da “Comunicação”, uns animarzinho que se acham muito cool só porque fumam um baseado, estão jogando altinho, as mocinhas todas selvagens tatuadas são todas lindas e “saradas”. Se você é um gordo doente é bom ficar longe dessa merda toda. Samedi sofria nos bailes de Carnaval, com toda a timidez abusada, que lhe era peculiar tentava desaparecer.

13.

Desejos do mundo. “Fala, fala”. “Não, não falo nada”. Isso era como a água, era limpo e ao mesmo tempo impossível de ser moldado. Eu me aproximei sorrateiramente. Estávamos sós. Tem uma série de coisas que gostamos de fazer sozinhos ou juntos, pensou Samedi enquanto a masturbava.
Ela era outras, mas a mesma de sempre, tímida e puta, me encantam os contrastes, vem como um fluxo de prazer e culpa, dúvidas, aceitações, você me quer ou não quer? Eu quero sempre que não queira, eu quero sempre o fim.
Morena, meio japonesa, talvez esteja aqui, André Samedi andava com tara por japonesas. O desejo parece que vai mudando, com certeza vai.
Sexo, história, política. Quem será o Hitler japonês que não entrou pra estória? Por que a gente não aprende a história do Japão na escola. Aquela ilhinha e só. Por que gostam de Jazz?
Queria repetir seu avô Jano, navegador insano dos mares. Uma puta em NY, um ópio em Bangoc, um MPC Akai em Tóquio, um hash no Cairo, uma guerrilha em qualquer país da África ou América Latina, Barcelona, Amsterdam. Mas tudo que ele tinha era Chet Baker e, sempre que acordava, um passo à frente do amanhã.... continua (ou não)

7 comentários:

madureira disse...

isso aqui (pancadinhas rápidas com o indicador no monitor) é um escrito sacudido, filhinha!
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eu vou imprimir e levar no mercadão, pra ver se é tudo viagem mesmo da minha parte e vc rir.
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não leiam os commentes! usem seu tempo pra ler o post mais uma vez.
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ou não.
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ler isso aqui me dá ganas de sair por aí.

Allan Robert P. J. disse...

Caro Ferreirinha,
Não lia nada de tão divertido desde "Sexo Anal" do Bia. Acho que você andou pulando alguns capítulos - vai ver foi quando levantou pra encher o copo e nem percebeu - mas mesmo assim ficou muito bom, num ritmo que flui a leitura. Vou ficar esperando a continuação, ou, pelo menos, o endereço do seu fornecedor.
:D

madureira disse...

essas preposições são geniais! potaqueopareo mané, eu vou criar uma academia pra vc poder mijar em cima e chutar na poeira.

~*Vica*~ disse...

Vixe, mas esse hômi anda inspirado!! Guri, só vou poder ler teus textos no findi. Beijos.

~*Vica*~ disse...

êêê!!!! tiraram a moderação!!! uhuuu!! bah, mas vcs são chiques, hein??? não têm contador, têm "blogpatrol"!

madureira disse...

valeu, vica, faço o que posso, por este blog... mas a satisfação de vcs compensa todo o trabalho. beijão!
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escalera!!!

ferreirinha disse...

mutchas gracias pelos comments e pela paciência para ler o contão... fiquei um tempo escrevendo e não estava postando por este motivo. escrevo pq busco uma voz interior que me faça humana. golb e madureira meus confrades do círculo literário 66 horns, desde os tempos dos tristes carnavais de atibaia.